Pantanal

 

Cintia Grininger nossa colaboradora, é engenheira de formação e atualmente trabalha com revisão de textos. No ano de 2015 esteve no Pantanal com seu marido e filhos, nesse post ela conta com detalhes como foi a sua viagem. Ela escreve o blog Entre Mochilhas e Malinhas. O texto e as fotos foram cedidas por Cintia, e são de sua autoria.

 

 

Das várias viagens que já fizemos em 5 (na época meus filhos tinham 2 e 5 anos, e meu enteado 12), com certeza essa é uma das mais marcantes. Eu confesso que não sou muito amiga de ecoturismo que não envolva praia, mas pensei no pantanal como destino de férias porque tinha na cabeça o Globo Repórter, aquelas imagens lindas de tuiuiús branquinhos, onças pintadas escondidas, muitos jacarés no meio do verde, e muita água (o que não exatamente corresponde à realidade, mas isso vai ficar claro mais pra frente).

Achei também que valia a pena conhecer um lado do Brasil com o qual não temos nenhum contato, nem eu nem marido conhecíamos o centro-oeste, e conhecendo um pouco a nossa galerinha – super fã de fazendas e bichos em geral – achei que ia ser um destino interessante. Encontrei no site Eu Viajo com Filhos a indicação que buscava: um hotel-fazenda com pensão completa e diversas atividades, também já inclusas no preço da diária. Há mais de uma fazenda nesse estilo, mas ligamos na Fazenda Xaraés e gostamos logo de cara do jeito e do preço (R$ 4900 para nós 5 com pensão completa e todos os passeios incluídos – preços de julho/2015). Eles nos indicaram um motorista para fazer nosso traslado do aeroporto de Corumbá até lá (R$ 1300 ida e volta) e conseguimos tirar as 5 passagens com milhagem (fomos de Azul, via Viracopos, com escala em Campo Grande, e deixamos o carro num estacionamento próximo ao aeroporto).É possível também ir via Campo Grande e seguir de carro até a fazenda (são 340 km). Via Corumbá, como fizemos, os voos fazem escala em Campo Grande, mas a distância de carro é de apenas 130 km. Se fosse fazer de novo não faria escala e encararia uma distância maior de carro, que acaba sendo menos cansativo e menos demorado que fazer escala.

Na nossa chegada em Corumbá o motorista já estava nos esperando. Ele seguiu pela Estrada Parque – que é 100% de terra – o que fez a viagem demorar muito. Teve a vantagem de já podermos ir apreciando a paisagem, atravessamos o Rio Paraguai de balsa, vimos um monte de jacarés e capivaras. Mas foi bem cansativo e apertado pois estávamos em 5 pessoas mais o motorista numa Pajero antiga. A paisagem na verdade é meio árida, pelo menos nessa época, o que já conflitou com a minha ideia Globo Repórter, mas foi bom pra já irmos acostumando com o que nos esperava.

Chegamos na Xaraés no final da tarde e fomos super bem recebidos. Aliás, a atenção e o tratamento foram impecáveis em tudo que precisamos. Nos ofereceram bolo e café quando chegamos morrendo de fome (em todas as tardes havia bolo e suco disponíveis, uma delícia pra matar aquela fominha da tarde). Os chalés são espalhados em dois prédios, e a sala de refeições fica em um terceiro. Tudo bem rústico mas a comida era deliciosa, bem caseira.Nos arredores da fazenda há muito espaço para as crianças correrem, muitas famílias de capivaras zanzando por ali, várias pequenas lagoas cheias de jacarés e alguns tatus bens amigáveis, que ficam sempre próximos do restaurante para se aproveitar dos restos de comida.Julho é época de seca, mas naquele ano excepcionalmente havia chovido bastante alguns dias antes da nossa viagem, e por isso estava bem friozinho. Eu levei poucos agasalhos e acabamos passando um pouco de frio; além disso, mesmo com repelente o tempo todo os mosquitos atacam sem dó, por isso não é bom ficar com braços e pernas à mostra, recomendo calças e mangas compridas o tempo todo.Assim que chegamos lá, éramos os únicos hóspedes brasileiros, o restante europeus (franceses e holandeses na sua maioria). Os guias falam inglês, assim como a gerente e a dona da fazenda, que estão sempre por ali.Todas as noites, durante o jantar, um dos guias vinha conversar com a gente sobre os passeios do dia seguinte, explicando direitinho como seria, o tempo de duração, quantas pessoas iriam, as precauções necessárias, o que iríamos ver, etc. Não há televisão nos quartos, e para acessar o wifi era preciso pagar uma taxa (R$ 10 por celular – e ainda assim só havia sinal próximo ao restaurante). Bem detox, eu diria…

Nosso primeiro passeio foi de barco a motor pelo rio que passa atrás da fazenda, o rio Abobral. Estava bem nublado e friozinho quando fomos tomar café, e aí já percebi que tinha errado nas roupas… Todos nós colocamos todas as blusas de frio que trouxemos, uma por cima da outra, e foi a melhor coisa que fizemos pois no barco ventava e ficava ainda mais frio – aliás, fica aqui o alerta: não dá pra ficar com os braços e pernas à mostra, os mosquitos são ferozes. Nosso guia era muito bom e foi nos explicando o tempo todo o que poderíamos ver – na verdade, como já disse, não é uma paisagem verdinha, e até os passarinhos são na maioria acinzentados e não muito numerosos. Vimos muitas capivaras (elas ficam bastante em torno do rio), um camaleão e vários jacarés dentro e fora da água.

O rio não estava tão baixo pois havia chovido na semana anterior, e naquela hora também não havia tantos mosquitos, provavelmente por causa da temperatura. Foi um passeio bem tranquilo.

No mesmo dia à tarde fizemos o safári fotográfico com jipe, que sai do hotel e vai até a sede propriamente dita da fazenda, onde fica a criação de gado. Vimos um porco do mato se aproveitando da ração do gado, e muitas araras azuis, alguns gaviões e corujas, e um cavalinho recém-nascido. Eles também participam de um projeto de reintegração de aves na natureza, então na casa principal havia um papagaio meio arisco se readaptando. Também foi um passeio tranquilo e os malinhas curtiram bastante.

Outro passeio da programação era a cavalgada. Meu caçula delirou de alegria, ele ama cavalos e não parava de falar disso! Quem nos guiou foi um senhor que trabalha na fazenda, o típico pantaneiro, que adorou o entusiasmo das nossas crianças. Meu caçula foi com o pai, preso num canguru, pois ficamos com medo que ele se desequilibrasse.

Os cavalos eram bem mansinhos – eu é fiquei meio tensa pois não sou tão amiga assim de cavalos e pra quem não está acostumado a montar pode ser bem desconfortável depois de algum tempo cavalgando (leia-se dá uma dor insuportável no bumbum, ainda mais para desfavorecidos de gordura nessa parte do corpo como eu!). Andando naquela paisagem deserta tive a maior sensação de isolamento de toda a minha vida, é um silêncio que até pesa, e em alguns pontos não se vê criatura viva onde o olho alcança.

Fizemos canoa canadense – de longe foi o mais tenso da viagem! Subimos o rio de barco a motor até o ponto onde as canoinhas estavam. O guia nos distribuiu por peso e capacidade de remar, e ficamos eu, marido e os dois pequenos juntos, o mais velho foi junto com um menino da idade dele em outra (e se divertiram horrores, vale dizer). Como a canoa é levinha não se pode mexer muito – fale isso para crianças de 2 e 5 anos que querem ver tudo e falar de tudo! Apesar de todos estarem de colete salva-vidas e o nível do rio estar bem baixo, fomos alegremente lembrados que havia piranhas naquele trecho. O bicho pegou mesmo pra mim quando marido virou e falou: se a canoa virar, se preocupe com você mesma que eu pego as crianças (!!). Como estávamos descendo o rio a correnteza ajudava, mas o nível da água estava baixo e de vez em quando a canoa dava uma enroscadinha. Os mosquitos começaram a nos atacar com toda a fúria – para afastá-los do rosto passei repelente no meu boné e nos das crianças (nem liguei pra intoxicação) mais de uma vez. Mas o sol estava se pondo e tiramos lindas fotos apesar de tudo. De qualquer jeito não aconselho muito esse passeio para as crianças menores, dá um certo medo e no final das contas nem é tão legal assim, pois remar é pesado (que o diga marido!).

A pescaria de piranha também faz parte do pacote. As crianças estavam animadíssimas, até descobrirem que pra pescar alguma coisa é preciso ficar bem quietinho e sem se mexer por muito tempo! Meu enteado pegou um único peixe, que nem era piranha. Eu e os pequenos fomos andar nos arredores pra ver os jacarés (tinha vários no entorno da lagoinha onde estávamos). Marido ainda insistiu um pouco na pescaria, sem retorno. Valeu pela diversão e pelas fotos, que ficaram lindas!

No mesmo dia da pescaria, à tarde estava programada uma trilha a pé para observação dos animais com a volta de jipe, passando novamente na sede da fazenda para ver o pôr-do-sol. Não quero me alongar aqui, mas a trilha foi difícil por vários motivos: estava bastante calor, os mosquitos mais ferozes que nunca por causa do calor e do horário, tive que carregar meu pequeno um bom pedaço pois ele se cansava fácil e só queria a mamãe, é difícil ver os animais (vimos um casal de macacos, um tatu, alguns passarinhos e só), e ainda não podíamos ficar conversando pra não fazer barulho. Digo só que me deu um mau humor insuportável (!).

Depois o guia nos pegou com o jipe e tudo melhorou, vimos nosso amiguinho papagaio novamente, os malinhas foram ver os cabritinhos, chegamos bem pertinho de um jacaré… Voltamos já estava bem escuro.

São oferecidos também passeios noturnos, pra (tentar) ver os animais que só saem à noite – quem sabe uma onça? Fizemos o de barco e o safári.

No barco, saímos pouco antes do escurecer, numa super animação, até que ficou bem escuro. Com a minha ingenuidade urbana típica pergunto que passarinhos eram aqueles que voavam perto de nós, e recebo a singela resposta que não são passarinhos, e sim morcegos. Infelizmente não vimos nenhuma onça, e com certa dificuldade vimos alguns pássaros noturnos, uma anta saindo da água, uma ou outra coruja… As crianças ficaram meio frustradas mas curtiram o negócio de ficar no escuro só com uma lanterna.
Para o safári também saímos no final da tarde para ver o pôr-do-sol. A noite é muito escura quando estamos longe das luzes da cidade! Enquanto ainda estava claro vimos uma família de porcos selvagens convivendo pacificamente com os bois, e um casal de araras azuis que praticamente posou para nossas fotos. Depois que escureceu conseguimos ver um lobo, algumas corujas, um veado… não foi dessa vez que a onça apareceu pra nós. Foi nosso último dia e uma linda despedida desse lugar tão peculiar.

Algumas conclusões: tire o Globo Repórter da cabeça, repito isso para todos que me perguntam dessa viagem. Os tuiuiús não vão voar a seu redor e os bichos em maior quantidade por lá são bois, jacarés e capivaras – nessa ordem mesmo. É preciso muita paciência e silêncio pra conseguir ver os animais mais interessantes, além de um bom guia. É preciso também uma alta tolerância a picadas de mosquitos, e eu recomendo levar uma farmacinha com anti-histamínico (o popular antialérgico), analgésicos e antitérmico – o lugar é bem isolado e a cidade mais próxima fica a mais de uma hora de estrada de terra.

Depois da nossa experiência, eu diria que 4 dias inteiros são suficientes para fazer todos os passeios com calma, e até repetir algum que se tenha gostado mais.

E apesar dos percalços – mosquitos principalmente – as crianças amaram, e é realmente uma viagem muito interessante especialmente para aqueles super urbanos como nós. É outra realidade, outro jeito de viver. É morar a muitos quilômetros de estrada de terra de qualquer cidade. É ver as mesmas pessoas todo dia, é trabalho duro todo dia. Foi uma experiência fantástica para nossos malinhas e para nós também, recomendo para todas as idades.

Sites úteis:

www.portalpantanal.com.br

www.brasil-turismo.com/pantanal.htm

www.xaraes.com.br

Passeio de jipe

Estrada Parque

Fim de tarde

Passeio a cavalo

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